Esse blog é uma verdadeira caixa de retalhos, escrevo tudo o que quero, lê quem quiser e comenta quem acha alguma coisa.

domingo, 30 de setembro de 2007

Martha Medeiros

Admiro muito a Martha Medeiros pelo seu estilo de escrita e por sua capacidade de captar as mensagens subliminares das coisas que andam rolando por aí. Segue um texto que me chamou muita atenção pela perspicácia da sua leitura em relação a uma frase tão banal que usamos no dia-a-dia e nem nos damos conta...

Eu estava descendo pelo elevador. De repente, a cabine parou no terceiro andar, a porta se abriu e reparei que havia um apartamento em obras. Uma moça meio empoeirada entrou no elevador e seguiu descendo comigo. Cumprindo as regras da boa vizinhança, perguntei quando é que se mudariam. Ela respondeu que, se tudo desse certo, na próxima semana, mas o marceneiro ainda tinha que acabar um serviço, e marceneiro, sabe como é...

Fiquei com aquele "sabe como é" martelando no meu ouvido. Marceneiro atrasa. Era isso que eu deveria saber como é. Aliás, nenhuma obra é entregue no prazo combinado, todo mundo sabe como é. E, por sabermos como é, as combinações são desrespeitadas e qualquer cobrança torna-se nula. Se a gente sabe como é, está reclamando do quê?

Alguns médicos não costumam atender no horário marcado. Antes de se deslocar até o consultório, convém telefonar. Há grande chance de a secretária avisar: "Olha, é melhor você vir uma meia horinha depois, porque a paciente das quatro e meia ainda nem chegou, sabe como é..."


Se uma peça de teatro está marcada para as 21h, é bom chegar às 21h, porque é provável que ela comece em ponto. Mas um show de rock numa casa noturna marcado para as 22h30min, sabe como é, antes da meia-noite não rola de jeito nenhum.

O presidente do Senado faltou com decoro parlamentar e não foi cassado? Lula considerou tudo absolutamente normal? Qual a surpresa? Você devia saber como é.

Ninguém aparecer para trabalhar na Quarta-Feira de Cinzas, não devolverem o livro que você emprestou, seu filho adolescente esquecer de dar um recado. A gente sabe como é. E sabendo, não se mexe, não corre atrás do prejuízo, não tenta mudar nada.

Esse conformismo talvez esteja com os dias contados. Sinto no ar, pela primeira vez, um desconforto geral que pode dar em alguma coisa. A gente sempre soube como a violência é, como a política é, como o Brasil é. Era assim mesmo. Desse jeito aí. Fazer o quê? Mas parece que nossa complacência chegou ao limite.

Espero que este 2007 seja marcado pela reação. Que todos tenham disposição para dizer: "Sei como é, mas não quero pra mim". É um posicionamento difícil de transformar em prática, mas se não dispensarmos o marceneiro que sempre atrasa o serviço, se ficarmos constrangidos de pedir de volta o livro emprestado, se não entrarmos na Justiça contra a empresa aérea que cancelou o vôo, como iremos nos habituar a lutar por coisas ainda mais sérias?

Chega de tolerar o malfeito e o errado. Daqui pra frente, ninguém mais sabe como é. Queremos saber como vai ser.

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